Jardineiro do Crato passa 16 anos preso na PIRC sem mandado de prisão
Foto: Redes sociais
Para muitos, 16 anos é uma
vida. No caso de Cícero José de Melo, esse foi o tempo em liberdade, direito
constitucional, que tiraram dele. Quase 5.500 dias preso por um crime que,
agora, o Tribunal de Justiça do Ceará (TJCE) admite não haver registros
processuais em aberto. Dos 32 aos 47 anos de idade Cícero buscou que alguém
acreditasse na sua inocência. Dizendo, de dentro da prisão, que ele não tentou
matar ninguém.
Nessa quinta-feira (8), Cícero
foi solto. Ao por os pés fora da Penitenciária Industrial e Regional do Cariri
(Pirc), em Juazeiro do Norte, Interior do Ceará, deu os passos para se refazer
depois de tantos anos sendo apontado como criminoso.
"Eu estava conversando
com um cidadão quando uma viatura me abordou e falou que eu tinha cometido um
crime. Nesse momento fiquei sem saber o que fazer. Não pediram nem
identificação. Me colocaram dentro da viatura, me fizeram passar vergonha. As
pessoas olhando para mim como se eu tivesse cometido crime mesmo. Eu falando
que era inocente e eles rindo de mim, rindo da minha cara", contou.
Depois, levado pelos policiais
até a Delegacia do Crato e, em seguida, para a cadeia da cidade: "Fui
transferido para Pirc no dia 1º de janeiro de 2009. Nunca tive visita. Eu vivi
no abandono. Quem me confortava era Deus e meus parceiros de cela".
Foi um companheiro de cela que
contou sobre Cícero para o advogado Roberto Duarte. A história de Cícero chamou
a atenção de Roberto quando ele soube que desde 2005 não houve nenhuma
audiência, e nem o pedreiro foi ouvido perante à Justiça. Agora, o cidadão
solto, está em busca de familiares, sob os cuidados do advogado, pois não sabe
para onde ir”.
O TJCE se posicionou, por
nota, explicando o fato em meio ao Judiciário. Conforme o Tribunal, ao ser
comunicado pela unidade prisional sobre a situação de Cícero José de Melo,
realizou pesquisas em sistemas de dados prisionais a fim de localizar registros
processuais sobre a prisão dele e encaminhou o ofício, enviado pela
Penitenciária Industrial Regional do Cariri, ao Ministério Público para
apresentar manifestação sobre o caso. Quando não foram encontrados registros
nos sistemas que justificassem a prisão, foi determinada a soltura.
Agora, Cícero busca refazer
sua vida e pede que a família finalmente acredite que ele nunca cometeu o
crime. "Passei 16 anos preso injusto. Eu servi o Exército. Meu sonho era
colocar meu filho no Colégio Militar. E esse sonho tiraram de mim. Eu me senti
péssimo. É difícil a pessoa se manter no Sistema Penitenciário com pessoas que
cometeram crimes, e eu sem ter cometido. Jamais eu ia mentir, se eu tivesse
cometido um crime, eu diria. Quem comete um crime tem mesmo que pagar pelo que
fez", acrescentou o pedreiro.
O Tribunal de Justiça disse
ainda que o caso foi registrado internamente para acompanhamento e registro das
informações. A reportagem procurou a Secretaria da Segurança Pública e Defesa
Social do Ceará (SSPDS) a fim de saber como se deu a prisão no ano de 2005 e
porquê ela foi motivada. Até a publicação desta matéria, a Secretaria não havia
se posicionado.
Por Diário do Nordeste
